Revista Textura 3ª Edição

SOBRE A CONFIANÇA EM BALINT
Pedro Salem e Jurandir Freire Costa

Resumo: Este trabalho explora os significados da noção de confiança na ontologia dos fenômenos mentais elaborada por Michael Balint. Depreende-se do psicanalista a compreensão do psiquismo como produto da interação ativa do organismo individual com seu entorno, e a importância teórica da noção de espaço é enfatizada como indicativa do caráter das relações de objeto. Baseando-se na teoria do amor primário, Balint concebe dois tipos de relações de objeto - a ocnofilia e o filobatismo -, ambas descritas como estratégias distintas para a recuperação de um estado de mistura harmoniosa que caracteriza o vínculo primeiro com o outro ambiental. Enquanto a confiança do ocnófilo é depositada nos objetos como fonte de segurança, o filobata confia em seus próprios recursos para lidar com os perigos externos. Defende-se a tese de que a confiança experimentada por esses tipos psicológicos básicos encerra, cada qual a seu modo, o valor de instrumento para o restabelecimento da experiência de continuidade com o ambiente, própria ao amor primário. Paralelamente a essa constatação, tematiza-se também o papel decisivo da confiança para a experiência de criatividade.

LEIA TRECHOS:

No modelo balintiano (...) A questão mente-corpo é (...) tratada de um ângulo diverso do da teoria freudiana (...).O núcleo primário da subjetividade (...) se encontra (...) nos espaços de interação ativa entre o indivíduo e o ambiente.
A noção de espaço adquire, em função disso, uma importância teórica crucial. Os fenômenos mentais são entendidos como derivados da relação que organismo mantém, de forma ativa, com a maior ou menor proximidade daquilo que o envolve. A tonalidade afetiva ou o caráter das relações de objeto é dado pela perspectiva ou distância em que eles se colocam em relação ao raio de ação corporal do sujeito.
Dessa premissa decorre o lugar teórico da noção de confiança. A confiança traduz uma qualidade particular das relações de objetos, e é decisiva para a experiência de criatividade, (...).
(...) Ao invés da mônada narcísica freudiana, Balint afirma a presença imediata da relação com o outro.
(...) O sentimento da confiança nos objetos ou da autoconfiança nos recursos próprios ao ego, forma a base da experiência de criatividade. Diferente da teoria freudiana, que postula a existência da representação recalcada do objeto como a matriz da sublimação ou das formações substitutivas sintomáticas, Balint afirma que a atividade psíquica do sujeito, normal ou patológica, não exprime a busca de um objeto para sempre perdido, mas a de um "estado mental" passível de ser atingido, mesmo que de modo parcial, pontual ou fugaz.
(...) Não obstante a relevância clínica, o conceito de confiança ainda não mereceu adevida atenção no cenário metapsicológico. Com esse trabalho, pretendemos chamar a atenção para um aspecto da vida mental, capaz de levantar interessantes questões sobre o modo de funcionamento das modernas formas de psicopatologia ligadas aos distúrbios do corpo ou aos distúrbios na economia narcísica do eu(...).


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