Resumo: Num percurso pela obra de Lacan, retomamos
os momentos em que menciona os termos psicossomática, fenômeno
e holófrase. Os eventos que acometem no organismo devem
ser cindidos em sintomas ou fenômenos, segundo a possibilidade
que oferecem ou não à interpretação.
Quando se pensam as relações entre o psiquismo
e o organismo é essencial delimitar-se de imediato que
existe mais de uma psicossomática.
(...) A psicossomática médica é o receptáculo
dos restos incompreendidos da medicina oficial. (...) Podem
ter uma "vertente" psíquica os quadros clínicos
não justificados por evidências orgânicas
(...) A psicologia se insere no mesmo terreno epistemológico
que a medicina. Também propõe a dicotomia entre
mente e corpo herdada do cogito cartesiano.(...).
Em psicanálise utilizamos ainda o mesmo termo que o médico
e o psicólogo, (...). Além das imposições
da própria clínica, (...) razões (...)
impõem a necessidade do estabelecimento cada vez mais
preciso das bases de uma psicossomática da psicanálise.
Para tanto, faremos (...) um percurso pela obra de Lacan (...)
que certamente abriu as trilhas a serem seguidas.(...) Lacan
(...) localiza a psicossomática para além das
construções neuróticas. Assinala que ela
se situa no limite da elaboração teórica,
ao nível do real (...). (...) teremos que a "psicossomática
é algo que não é um significante".
Uma "petrificação", uma "gelificação"
não permite a constituição de um intervalo
entre S1 e S2, como na holófrase. (...).
Lacan liga assim o conceito de holófrase ao fenômeno
psicossomático. (...) na holófrase o sujeito não
se conta. Identifica-se a ela. Solidifica-se ao significante.
(...) Na solidificação do par significante S1
/ S2 há uma suspensão da função
do significante enquanto tal, (...).Lacan afirma que os fenômenos
psicossomáticos são traços inscritos no
corpo, semelhantes a hieróglifos que não sabemos
ler. (...).
(...) O hieróglifo que caracteriza o fenômeno psicossomático
é esse símbolo que nada representa para o sujeito.
Um carimbo marca o corpo como um enigma que o sujeito é
incapaz de ler. Como se em algum lugar houvesse um experimentador
oculto, veiculando um desejo que para o sujeito permanece recoberto,
inacessível.(...)