Resumo: O trabalho aborda a diferença entre
o material do sonho e a memória no mesmo, como Freud parece
indicar na Interpretação dos sonhos. O material
do sonho aparece figurado, como uma escritura em imagens, enquanto
a memória se intui a posteriori, ao descobrir-se uma seqüência
no interior de tal material. Comprovamos, então, que esta
seqüência se produz só quando se relaciona o
material sonhado com uma vivência anterior. Na maior parte
das vezes, estas "vivências" não são
possíveis de recordar durante a vigília, só
se chegando a saber delas através dos sonhos. Vemos como,
a partir do sonho, torna-se evidente uma memória que não
se corresponde com a consciência, onde a vivência
primeira tende a conformar um saber que não se sabe com
o conteúdo do sonho, de que a vigília não
tem conhecimento. Esta memória pode ser relacionada com
uma série linear de signos que conotam a alternativa da
presença ou da ausência, junto a leis "sintáticas"
determinantes. A memória no sonho se compõe, então,
de uma rede de associações significantes, facilitações
inconscientes a que chamamos de memória simbólica.
Esta proposta não pensa a memória como uma "impressão"
sobre uma camada de cera, na medida em que a reprodução
"exata" nunca será alcançada.
LEIA TRECHOS:
(...) O material do sonho aparece figurado, como
uma escritura em imagens, enquanto a memória se intui a
posteriori, (...).
Nesta seqüência temporal, o figurado no sonho não
é recordado depois na vigília como pertencendo a
nosso saber. Não o recordamos como formando parte de nossa
história e ficamos às escuras sobre a fonte onde
o sonho pôde se nutrir. (...).Este é um "saber"
que se subtrai à capacidade de recordação
na vigília e que conseguimos reconhecer, a duras penas,
a posteriori.
O interessante se apresenta mais tarde, quando comprovamos que
esse material esquecido e reencontrado depois de uma considerável
e prolongada busca, não costuma ser tão significativo
para o sujeito que o sonhou (...)
A vivência esquecida e depois recordada por uma nova vivência
continua sendo, no entanto, muito importante, apesar de não
ser significativa.
(...) este rastro material da vivência anterior não
aparece como traço, mas como palavra; assim, uma nova vivência
nos devolve a recordação. (...) O que volta, o que
retorna graças a uma nova vivência, é a recordação
e não a vivência.
(...) acreditamos ingenuamente que ao recuperar a recordação
da "vivência primeira", a vivência esquecida,
o sonho se tornaria compreensível, e nos equivocamos. Essa
vivência primeira não é a vivência original,
mítica, à qual nunca teremos acesso, mas é
a que, apesar de ser aparentemente insignificante, articula a
seguinte, a que compõe o material do conteúdo do
sonho(...).
A essa articulação entre dois elementos, um que
provém da recordação da materialidade do
sonho manifesto e outro que retorna como recordação
de uma vivência anterior e confirma o presente do sonho,
chamamos de memória. O que ela confirma? Que há
um sujeito.(...)
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