Revista Textura 3ª Edição

A MEMÓRIA NO SONHO
Norberto Giarkovich

Resumo: O trabalho aborda a diferença entre o material do sonho e a memória no mesmo, como Freud parece indicar na Interpretação dos sonhos. O material do sonho aparece figurado, como uma escritura em imagens, enquanto a memória se intui a posteriori, ao descobrir-se uma seqüência no interior de tal material. Comprovamos, então, que esta seqüência se produz só quando se relaciona o material sonhado com uma vivência anterior. Na maior parte das vezes, estas "vivências" não são possíveis de recordar durante a vigília, só se chegando a saber delas através dos sonhos. Vemos como, a partir do sonho, torna-se evidente uma memória que não se corresponde com a consciência, onde a vivência primeira tende a conformar um saber que não se sabe com o conteúdo do sonho, de que a vigília não tem conhecimento. Esta memória pode ser relacionada com uma série linear de signos que conotam a alternativa da presença ou da ausência, junto a leis "sintáticas" determinantes. A memória no sonho se compõe, então, de uma rede de associações significantes, facilitações inconscientes a que chamamos de memória simbólica. Esta proposta não pensa a memória como uma "impressão" sobre uma camada de cera, na medida em que a reprodução "exata" nunca será alcançada.

LEIA TRECHOS:

(...) O material do sonho aparece figurado, como uma escritura em imagens, enquanto a memória se intui a posteriori, (...).
Nesta seqüência temporal, o figurado no sonho não é recordado depois na vigília como pertencendo a nosso saber. Não o recordamos como formando parte de nossa história e ficamos às escuras sobre a fonte onde o sonho pôde se nutrir. (...).Este é um "saber" que se subtrai à capacidade de recordação na vigília e que conseguimos reconhecer, a duras penas, a posteriori.
O interessante se apresenta mais tarde, quando comprovamos que esse material esquecido e reencontrado depois de uma considerável e prolongada busca, não costuma ser tão significativo para o sujeito que o sonhou (...)
A vivência esquecida e depois recordada por uma nova vivência continua sendo, no entanto, muito importante, apesar de não ser significativa.
(...) este rastro material da vivência anterior não aparece como traço, mas como palavra; assim, uma nova vivência nos devolve a recordação. (...) O que volta, o que retorna graças a uma nova vivência, é a recordação e não a vivência.
(...) acreditamos ingenuamente que ao recuperar a recordação da "vivência primeira", a vivência esquecida, o sonho se tornaria compreensível, e nos equivocamos. Essa vivência primeira não é a vivência original, mítica, à qual nunca teremos acesso, mas é a que, apesar de ser aparentemente insignificante, articula a seguinte, a que compõe o material do conteúdo do sonho(...).
A essa articulação entre dois elementos, um que provém da recordação da materialidade do sonho manifesto e outro que retorna como recordação de uma vivência anterior e confirma o presente do sonho, chamamos de memória. O que ela confirma? Que há um sujeito.(...)

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