Revista Textura 3ª Edição

SOBRE A FUNÇÃO PATERNA
María Luisa Scalise de Viviani

Resumo: O objetivo deste artigo é questionar a afirmação, que circula no discurso psicanalítico, relativa ao declínio do pai na pós-modernidade e suas conseqüências na subjetividade. A partir da fala de um pai, entrevistado numa emissora de rádio, são tecidas considerações a respeito da função paterna, simbólica, diferenciando-a da imago paterna como instância imaginária da paternidade. Trata-se da constituição do sujeito desejante e, através de um texto de Kierkegaard, exemplifica-se a função fálica, que articula não só o corpo à pulsão como o desejo à Lei. A respeito da subjetividade contemporânea é destacada a preeminência do narcisismo.

LEIA TRECHOS:

(...) Na psicanálise, fala-se da pós-modernidade e de seus efeitos na subjetividade. O chamado "declínio da função paterna" é freqüentemente referido à pós-modernidade e a este declínio são atribuídas novas patologias psíquicas.
(...)Proponho que coloquemos em discussão essa afirmação e, para tanto, gostaria de relatar um fragmento de entrevista que escutei, no começo do ano 2000, numa emissora de rádio paulista.
(...) O repórter perguntou ao entrevistado como ele imaginava que seriam as relações familiares no próximo século. O entrevistado respondeu que, a seu ver, as mudanças não iriam acontecer com a virada do século, pois, havia muito tempo, elas vinham se produzindo. Pediu licença, então, para relatar uma pequena história familiar, para melhor ilustrar seu pensamento.
(...) Com esta história o entrevistado nos diz que as mudanças nas relações familiares começaram quando ele abriu mão dos privilégios, a que tanto ambicionara na sua infância, em favor dos seus filhos. A questão é por que cedeu? (...)Por que quando ele é pai não pode usufruir as vantagens que sua condição lhe outorga? (...)O que nós, como psicanalistas, podemos dizer desta fala? Fala que é uma bela metáfora da constituição de um sujeito desejante e das dificuldades, neuróticas certamente(...).
(...)É característico da modernidade, e do narcisismo parental, esse lugar privilegiado das crianças. (...)
(...) Se são somente o declínio da imago paterna e o narcisismo os temas que sublinho, o faço porque acredito que são os que nos permitem pensar nos efeitos subjetivos das transformações ocorridas no nosso "Século Breve", denominação dada por Eric Hobsbawm ao século XX.(...).
(...) Será que é o mesmo dizer declínio da função e declínio da imago?

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