Revista Textura 3ª Edição

A HISTÉRICA E O ADOLESCENTE
Leda Mariza Fischer Bernardino

Resumo: A autora apresenta uma articulação entre a posição da histérica e a posição do adolescente, do ponto de vista psicanalítico. A partir do caso de uma das histéricas atendidas por Freud, aponta várias características presentes na clínica com o adolescente, desde a demanda, a transferência, até os impasses na condução da análise, destacando a função do tempo da interpretação. Ilustra com um caso clínico de uma adolescente de 13 anos, em que a análise, assim como a de Dora, fracassou devido à dificuldade de manejo da relação transferencial.

LEIA TRECHOS:

(...)Existe uma estreita relação entre histeria e adolescência, a partir principalmente de uma atopia que faz o sofrimento tanto da histérica - ao não encontrar seu lugar no mundo - quanto do adolescente, que não tem estatuto social definido (...)
(...)Na época de Freud, a adolescência era um conceito incipiente - ele mesmo o utilizou poucas vezes a propósito de seus pacientes. Mesmo tendo já um estatuto de significante, a adolescência não se configurava como um tempo (...)Entretanto, quando hoje nos reportamos a alguns dos casos por ele relatados, deparamo-nos com pacientes que poderiam perfeitamente corresponder a um estatuto de adolescente. Por exemplo, Katharina, o Homem dos Lobos e Dora.
(...)No que concerne a Dora, é possível identificar em alguns de seus sintomas uma posição tipicamente adolescente. (...) este caso permite-nos também acompanhar com minúcias esta proximidade entre o que seria uma posição enunciativa adolescente e uma posição enunciativa histérica.
(...)Indo mais longe poderíamos sugerir que as dificuldades encontradas por Freud em suas intervenções e na condução da análise seriam peculiares à clinica com adolescentes. O adolescente situa o analista numa peculiar situação transferencial: o da desconfiança, nesse momento em que vê fracassar as encarnações do Outro , na medida em que as figuras parentais aparecem falhas e não mais sustentam o sujeito em sua enunciação.
(...)A histeria, por sua vez, resolve-se justamente, enquanto estrutura, através da constatação desta falta, vivida como impotência, o que faz dela a neurose por excelência.
(...)O adolescente passa por uma posição histérica por necessidade, pois se depara com o final do tempo de garantia representado pela infância (...)
(...)Só lhe resta interrogar incessantemente o mestre, não em seu enunciado, mas em sua própria enunciação - no que ela possa deixar entrever de desejo, para decifrar o enigma. Para manter o desejo vivo, é preciso não deixar o mestre acertar nunca, mas marcá-lo incessantemente com a falta. Aí estão eles - a histérica e o adolescente - pondo o pai na berlinda, (...).

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