Revista Textura 3ª Edição

O TEMPO DO DESEJO
Ivan Corrêa

Resumo: Quando alguém procura uma análise, sua demanda se faz no tempo, no presente de sua narração. E não haveria nenhuma modificação possível do passado, se não estivessem presentes seus antigos desejos, que fazem com que o passado se reconstrua no presente de sua invenção, que se elabora em palavras. Na análise, o tempo se contorce e revolve de outra forma a história do sujeito, na atemporalidade do inconsciente e do desejo. Assim é instaurado, pelo sujeito, um processo de seu próprio passado que ele interroga numa busca de apropriação, de subjetivação de sua própria história, e que faz marcas e laços nesta mesma história.

LEIA TRECHOS:

(...)Na lição de 15 de Abril de 1959, no Seminário VI, "O Desejo e sua Interpretação", Lacan sublinha a importância da função do tempo - do fator temporal - na constituição do desejo do sujeito e na estruturação dos sintomas. Acontecimentos ou eventos que, propriamente falando, não são intemporais, mas que se situam fora do tempo.
(...)O que é o tempo? Será que o tempo existe? Ou só existe quando pensamos nele? E que tipo de existência é a do tempo?
(...)Uma coisa se evidencia quando falamos do tempo. Em qualquer campo em que nos situemos - filosófico, físico-matemático, psicanalítico ou do senso comum - temos sempre a impressão de que o objeto em vista não é homogêneo. Da mesma forma que o desejo - seja ele "Wunsch", "Begierde" ou "Begehren" - é sempre a falta inscrita na palavra e o efeito da marca do significante no ser humano.
(...) A temporalidade é inseparável do fato de que certas marcas inscrevem acontecimentos imaginados e apenas imaginados como produtos do desejo. Fato que põe em causa a posição subjetiva do ser de fala. Foi esta a grande surpresa de Freud diante da "Próton Pseudos" das histéricas.
(...) De modo geral foi deparando-se com a neurose que Freud formulou seus postulados relativos ao tempo, ao desejo, assim como sua invenção do inconsciente.
Há(...)uma infância sempre atual que indica uma atemporalidade do inconsciente. Daí Freud dizer que o inconsciente é atemporal, ou que se situa "fora do tempo" (Freud, 1976). (...) ele se deduz a partir de seus efeitos, numa espécie de retorno do tempo. Retorno que se desenvolve numa história onde os tempos passados, guindados pelo desejo, faz eco no presente, com repercussões no futuro.
(...)Se o passado se realizasse de uma vez por todas, por que se reconvocá-lo-ia numa análise? Isso só faz sentido se ele puder ser remanejado. É o que nos autoriza a fórmula de Freud segundo a qual "o inconsciente ignora o tempo".
(...) Na análise, o tempo se contorce e revolve de outra forma a história do sujeito, ou seja, na atemporalidade do inconsciente e do desejo.
(...)Essa atemporalidade do inconsciente é que permitiu a Lacan construir sua Topologia, estudo dos laços e dos elos entre diferentes nós. (...) Isso nos possibilita compreender como o presente, o passado e o futuro são indissoluvelmente ligados, por estarem atados pela atemporalidade e pela indestrutibilidade do desejo.

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