Revista Textura 3ª Edição

TATUAGEM: TRAÇO E DESENHO COMO MARCA CORPORAL
Ana Costa

Resumo: este artigo trata da abordagem psicanalítica da função da tatuagem, tomando-a não somente como enfeite corporal, mas como pré-condição da produção de representantes do sujeito. Persegue essa função tentando precisar seus invariantes em diferentes culturas, situando-a como ligada à sacralização do corpo.

LEIA TRECHOS:

(...)O repertório de traços que suportam o olhar de nosso corpo é bastante variado e se modifica conforme a cultura. É preciso que se diga que esse olhar,(...) Ele precisa compor uma espécie de coluna vertebral que mantenha todo equilíbrio do corpo(...).
Por que os homens começaram a tatuar-se, fazer-se "piercing", escarificar-se ou mesmo mutilar-se?(...).
(...)Precisa-se (...) considerar que a diferença da produção desses traços no corpo, (...) Diz respeito, sim, a uma complicada superposição entre objeto, traço e ato resultante do recalcamento originário (...).
(...) qual a relação entre essas práticas e a construção de uma imagem corporal?
(...)Não é simples apreender as relações entre os diferentes suportes do corpo, naquilo que seu funcionamento pressupõe de heterogeneidade radical, bem como a forma que se constitui sua contenção. Estamos denominando de heterogeneidade a condição de que nosso organismo inclui símbolos e imagens em seu funcionamento. (...)E as imagens vão se apoiar, privilegiadamente, nos orifícios de nosso corpo. Curioso é que por essa condição os orifícios serão erogeneizados (...).
(...) O que chama atenção tanto na tatuagem, quanto no "piercing" é sua dupla condição: a de fazer orifício e a de acrescentar elementos estranhos ao organismo como compondo o corpo próprio(...). Essas duas condições nos dão uma pista sobre a seguinte questão: a constituição do olhar - ou mesmo de um traço - do Outro como exterioridade apóia-se também na inclusão de uma exterioridade - um elemento estrangeiro - no próprio funcionamento do corpo.
(...)Até aqui vimos como a tatuagem pode ligar-se - num ponto circunscrito - ao desenho de uma imagem corporal. (...) Vamos propor, agora, uma outra configuração, que também faz parte do ato de tatuar-se. Ela diz respeito à composição de uma "figura da ausência". (...) A questão da ausência também é destacada no senso comum, quando se busca representar na pele uma memória que não se desloca, não se substitui. Está na representação de amores e nomes, (...) quase como "investidos" de sua nostalgia.

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