Revista Textura 2ª Edição

UMA ESCUTA PSICANALÍTICA DAS VIDAS SECAS
Miriam Debieux Rosa

(…) Parece estar havendo a quebra dos fundamentos do contrato social, com consequente desproteção de uma parcela da população e, por vezes, total desanparo social, impedindo seu acesso efetivo aos recursos institucionais organizadores da vida social ( saúde, educação, moradia, trabalho, segurança, etc...) (...)
(...)As questões que levanto neste trabalho não dizem respeito à elaboração de novas teorias, mas à construção de uma escuta clínica que leve em conta a especificidade de tais pessoas e situações, e que trabalhe a necessidade de uma qualificação que habilite psicólogos e psicanalistas a detectarem as sutís malhas da dominação e a não confundirem seus efeitos com o que é próprio do sujeito. (...)
(...) A escuta desses sujeitos pode tanto lhes propiciar dar andamento à articulação significante, rompendo com identificações imaginárias,como contribuir para elucidar alguns efeitos subjetivos do "bom" funcionamento do sistema. (...)
(...) O tema é, portanto, o impasse da resistência do analista com uma ética do sujeito; com seu confronto com ela. (...)
(...) na relação analista-analisando, os sujeitos ocupam lugares opostos na estrutura social: a inclusão e a exclusão, frente a frente. Um porta vários dos emblemas que possibilitam posições fálicas, sabe e domina os instrumentos da pertinência - o psicanalista é designado nessa função por ser, na estrutura social, o representante de um certo saber que lhe confere um lugar de escuta e fala. O outro, o paciente está, digamos, fora do acesso a essas posições, o que frequentemente toma o peso imaginário de estar fora, excluido da estrutura social. (...)
(...) Assim, antes de pensar em diagnósticos e estruturas, é preciso escutar o sujeito (...)

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