Revista Textura 2ª Edição

O LER E O ESCREVER: UMA POLÍTICA DE TRANSMISSÃO
Betty Bernardo Fuks

(…) Quem não viveu a experiência de Ter os sonhos lidos como rébus tal como recomenda Freud logo no início do capítuloVII da Interpretação dos Sonhos - não desenvolve a capacidade de ler, de modo análogo, o texto Freudiano. (…)
(…) A dificuldade de preservar o ateísmo da escritura decerto reside em que suportar o incognoscível, não combina, em geral, com o espírito humano que jamais se cansa de procurar organizar-se no sentido de encontrar, rapidamente, respostas fixas e certezas imutáveis ao enigma da vida e da morte. (…)
(…) Moisés é o texto mais claro da obra freudiana onde encontramos esta articulação entre o mito e o recalcamento como resposta à questão da transmissão. Ele decifra, por sua própria escritura, os traços da morte da imagem ( invenção do monoteísmo ), os traços da morte do objeto ( a invenção da escritura ) e os traços do próprio assassinato. O pai morto torna-se a letra textual dessa escritura e, enquanto tal, produz o efeito de não identidade e o de autodiferença. (…)
(…) Mais próximo da ética dos antigos escribas e intérpretes do Antigo Testamento do que dos cientistas e mesmo dos analistas que insistem em ler o Inconsciente com base numa gnosis de símbolos, Freud em Moisés e o Monoteísmo desconstrói o texto: convoca palávras, reinscreve traços, corta letras, dá corpo aos brancos de um pergaminho de tempos imemorias e ressignifica, genialmente, o Pentateuco. (…)

quer ler mais ...