Revista Textura 2ª Edição

UM DISCURSO QUE NÃO É RADICAL OU O DISCURSO DO A-VICIADO
Aurélio Souza

(…)Aqui, há uma sutileza a se considerar: O significante S1 só passa a representa-lo desde que o próprio sujeito tenha sofrido uma determinada perda em sua identidade. Isso que se perde, adquire na psicanálise o estatuto de "objeto" , do objeto a, causa do desejo.
A partir dessa perda que o divide, o sujeito mantém-se num estado de "ereção" de desejo em busca desse objeto perdido. Nessa procura pelo objeto, espera restaurar um estado imaginário anterior de completude narcísica. Aqui, por uma condição lógica de estrura, deve-se considerar como uma tarefa impossível de se realizar, pois esse objeto jamais poderá ser alcançado e essa "falta", desfeita.(…)
(…) O sujeito ao se identificar a essa face imaginária desse objeto inominável que causa e sustenta o desejo, o objeto a, veste-se com diferentes roupagens dos objetos da pulsão: o seio, as fezes, o olhar, a voz, o nada … Dessa maneira , por uma condição de estrutura, o fantasma fundamental vem sustentar o desejo do sujeito que é de se fazer o objeto do desejo do Outro. (…)
(…) Assim, um discurso passa a se organizar numa conexão entre dois lugares: o lugar do UM ( à esquerda) e o lugar do outro significante (à direita). Trata-se de um dispositivo topológico e tipológico em que o lugar do Um tem uma função interveniente sobre o lugar do "outro significante"" , que mantém uma alteridade radical em relação ao primeiro.
(...) Estes dois lugares têm sido ocupados por diferentes pares: o amo e o escravo, o mestre e o a-estudante, o analista e o analisante, o homem e a mulher … entre outros. (…)
(…)Numa posição de certa forma convergente com o "discurso do capitalista", o objeto passa a ocupar uma posição muito especial para o sujeito, fazendo parte de um dispositivo que se pode considerar äcéfalo". Nessa condição o sujeito mantém-se excluido de sua subjetividade e o objeto se realiza numa condição mais que fálica, "bastante fálica", ocupando um lugar em que chega a se tornar passível de "adoração". (…)
(…)O objeto se ilumina , adquire um brilho a mais que fascina, atrai, mas sobretudo encadeia o "a-viciado", despertando-lhe um impulso incontrolável para possuí-lo. (…)
(…)Enquanto o saber inconsciente confere ao sujeito, cuja posição é normatizada na estrutura, uma intencionalidade para o objeto através do fantasma fundamental ( S/ -a), com o a-viciado ocorre algo de uma outra natureza. (…)

quer ler mais ...