Revista Textura 1ª Edição

Joyce e a Mulher
Marcus do Rio Teixeira

LEIA TRECHOS:

{...)não seria exagero dizer que, para muitos lacanianos, Joyce é apenas um caso de Lacan, uma ilustração do seu quarto aro, aquele que mantém unidos o Real, o Simbólico e o Imaginário. Para evitar cairmos numa hagiografia de Lacan — como este criticava uma hagiografia de Freud — seria conveniente situarmos aqui o papel que desempenhou Joyce no seu ensino, antes de entrarmos no nosso tema(...)

(...)“Que haja o drama de Shakespeare por trás de Hamlet  é secundário em relação ao que compõe a estrutura, é esta estrutura que responde pelo efeito de Hamlet”. (aula de 18/3/59). É, portanto, menos o desejo de Shakespeare do que o desejo de Hamlet que interessa — e menos o desejo de Hamlet do que “todos os desejos”, já que o personagem não é alguém de carne e osso, mas uma construção literária que pode ser tomada como representando, entre outras coisas, relações de desejo.

Ora, não deixa de ser surpreendente ver Lacan adotar, na análise da obra de Joyce, uma abordagem inteiramente diversa(...)

(...)o que nos propomos é dizer alguma coisa sobre Joyce e sua obra, utilizando, para tal, algumas observações do próprio Lacan. Mais especificamente, interessa-nos estudar a representação d’A Mulher, ou do ideal da feminilidade, nessa obra que é o Ulisses(...)

(...)ao contrário dessa fala masculina, dura e cortante, a fala feminina em Joyce é fluida, líquida, e escorre ininterruptamente ao longo de dezenas e dezenas de páginas sem pontuação. Este caráter fluido da fala associado a uma personagem feminina prenuncia outra criação do seu último romance, Finnegans Wake: trata-se de Anna Lívia Plurabelle, a personificação feminina de um curso d’água, o famoso rio Liffey, que banha Dublin. Pode-se ler aí também uma referência à anatomia feminina, aos líquidos do corpo da mulher: fluxo menstrual, urina, etc. Essa intromissão do real do corpo no simbólico da cadeia significante confere ao texto joyceano um tom demasiadamente cru em certos trechos, que chocou leitores, críticos e editores pudicos, e lhe trouxe uma série de problemas com a censura(...)

(...)É digno de nota que é nesse seminário que ele vai ponderar o seu famoso aforismo, ao situar a possibilidade de existência da relação sexual pela via do sinthoma14 (...)

(...)é a elaboração desses elementos na escritura que Lacan vai considerar como um bom enodamento do nó Borromeu, com um resultado igual ou melhor que o de uma análise(...)

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