Revista Textura 1ª Edição

Nós, sujeitos literários
Maria Rita Kehl

LEIA TRECHOS:

       “Todos acabam sempre se tornando um personagem do romance que é sua própria vida. Para isto não é necessário fazer uma psicanálise. O que esta realiza é comparável à relação entre o conto e o romance. A contração do tempo, que o conto possibilita, produz efeitos de estilo. A psicanálise lhe possibilitará  perceber efeitos de estilo que poderão ser úteis a você.”

            (...) Como não nos deixar afetar pelas duas formas de relação entre a escrita e o tempo mencionadas rapidamente por Lacan – de um lado a extensão, a dilatação, a insistência exaustiva na recuperação da memória  e na explicação causal dos incidentes da vida, próprias do romance e também da neurose; de outro lado a contração, as elipses, a manutenção de um certo enigma, a modificação de estilo operada por um processo analítico, e que produz no sujeito a possibilidade de narrar-se de outra forma, mais aparentada à elegância do conto?

            Romance e neurose; não creio que essa associação se refira apenas à insistência com que nos dedicamos a recriar  a “ novela familiar do neurótico”(...)A frase de Lacan me faz pensar (...).

            (...) Não há dúvidas de que a falação que há mais de três séculos organiza (ou  pretende organizar) as formas erráticas do dia-a-dia das pessoas, produz uma espécie de visibilidade na vida dos homens comuns que pode ser conveniente para as micro estruturas do poder disciplinar.Mas é possível também pensar (...) que esta escritura individual, órfã de qualquer autoridade (o que deixa margem para supormos como psicanalistas, a submissão inconsciente a um discurso recalcado), nasce justamente dos lugares deixados vazios pelo poder: é onde o sujeito ocidental se desgarra de uma tradição  que fala por ele e produz algum sentido para a sua vida, que ele se vê compelido a falar/escrever/narrar.

            (...) A primeira coisa que reconhecemos na frase de Lacan, é que pensamos nossas trajetórias de vida como se  fossem romances, com começo, meio e fim articulados por alguma lógica, e algum sentido revelado no “capítulo” final.Conseqüentemente, pensamos a nós mesmos como personagens dessa história.Neste caso quem seria o autor? Caso não reconheçamos a parceria (obrigatória) com o Outro, e não seria o que somos se reconhecêssemos, tendemos a pensar que o autor somos nós.(...) Um romântico não poderia dizer outra coisa, mas é preciso reconhecer o quanto o romantismo faz parte da herança que produziu o sujeito moderno.Sujeito que se poderia chamar, hoje, de “sujeito do inconsciente” tanto quanto de “sujeito literário” - não como duas faces de uma mesma moeda, mas como duas pontas da corda esticada sobre a qual nos equilibramos precariamente: se uma das pontas da corda que sustenta o  conjunto se soltar, esse pobre sujeito despenca, cai do alto de si mesmo.(...).

            (...) uma pergunta lançada pela frase de Lacan que abre este artigo: no que consiste a “passagem do romance ao conto” efetuada pelo sujeito/autor depois de um percurso de análise? (...) A operação de simbolização da castração efetuada ao longo de uma análise libera o sujeito da compulsão de tentar deter no tempo o movimento errático da vida podendo criar, a partir de sua falta-a-ser, uma ficção mais imprecisa, cheia de elipses, que suporta os enigmas(...).

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