Revista Textura 1ª Edição

O Que se paga?
Eliana Harfush Midlej

(...) Freud muitas vezes se referia ao dinheiro e ao ouro indistintamente.

Mas o dinheiro não está sempre em boa companhia.Ele também está do lado dos excrementos (...).

O dinheiro está intimamente ligado aos nossos dejetos.Esta clássica e bizarra aproximação entre a substância mais preciosa que o homem conhece e a mais desprezível para ele, interessará a Freud.

 (...) nos revelará Freud que fezes e dinheiro estão ambos inseridos no campo da pulsão anal-erótica. Nos apresentará uma equação que se estabelece no pensamento neurótico e que tornará esses elementos equivalentes e substituíveis entre si. (...) mais tarde (...) irá ampliar a sua formulação e incluirá fezes e dinheiro numa série de equivalências fálicas.(...).

 Nos interessará (...) pensar o dinheiro como componente do erotismo anal e como equivalente fálico.(...).

Temos    aqui  duas versões – nada usuais aliás -  para o dinheiro. O dinheiro como merda e o dinheiro como falo.(...).

É na via da pulsão (...) que circulam dinheiro e fezes (...).

(...) Através de uma equação simbólica, Freud nos demonstrará as transformações pulsionais – exemplificadas no erotismo anal – recorrentes na neurose:

 

Fezes-(dinheiro-dádiva)-bebê-pênis.

 

Esses componentes pulsionais são tratados muitas vezes como equivalentes entre si e podem livremente substituir um ao outro.

(...) O dinheiro entrará nesse circuito de trocas e equivalências também como dádiva.Aliás, a criança só conhece o dinheiro que lhe é dado, não conhece o dinheiro adquirido por si (...).O dinheiro é dádiva que vem de um outro, também como sinal de amor (como um presente).

(...) A equação freudiana é um circuito de múltiplas e complexas relações que abrange as diferentes fases da organização libidinal.O pivô dessas relações e das pesquisas sexuais infantis é a descoberta da função do pênis (...).

O pênis é uma função para Freud, portanto. E essa formulação nos conduz ao conceito lacaniano de falo.(...).

(...) Gostaria (...) de prosseguir um pouco mais no desenvolvimento que dará Lacan ao que Freud nos deixou.

(...) A experiência diária das fezes constitui uma perda para o narcisismo.É algo que se separa do corpo.Essa perda, como também a retirada do seio materno, será ressignificada. E Lacan dirá: ressignificada  como uma espécie de bônus para  a perda do amor incestuoso.

(...) Assim, o seio (...) as fezes, o dinheiro - que são dados - são reinvestidos  como bônus para a perda sofrida.(...) Esses são os objetos mais-gozar.È com esses objetos que o analisante  pretende gozar na análise (e na vida!).É com isso que ele quererá lucrar narcisicamente, com os bônus, com esses excedentes (...).

quer ler mais ...